Panorama do tradicionalismo católico

SimplexTradicionalismo Católico

Em artigo anterior, o tradicionalismo católico foi definido como o movimento dos católicos convictos de que, com o Concílio Vaticano II (1962 – 1965) e seus desdobramentos, a Igreja rompeu com seus ensinamentos do passado (Tradição ou Magistério anterior) e de que isso foi negativo, de modo que ela deve voltar a ser como era antes da chamada “revolução conciliar”. Afirmou-se também que essa corrente não é monolítica.

Este artigo, por sua vez, pretende explicar o panorama tradicionalista, ao identificar nele três grupos principais, aqui denominados de lefebvristas, de sedevacantistas e de tradirromânticos.

Essa divisão é feita com base em três planos de discussão.

O primeiro tem natureza filosófico-teológica e diz respeito aos próprios textos do Vaticano II. Nele se debate se os ensinamentos conciliares estão ou não em contradição fundamental com a Tradição (ou Magistério precedente) sobre o mesmo tema.

Como exemplo de debate travado nesse plano de discussão, há as Dúvidas (Dubia, em latim) sobre a liberdade religiosa que Dom Marcel Lefebvre enviou à Santa Sé, em 1985, e a resposta a elas que foi formulada pelos teólogos do Vaticano, segundo os quais há continuidade doutrinária entre o Magistério do Vaticano II e precedente sobre esse tema.

O segundo plano também tem natureza filosófico-teológica e diz respeito à possibilidade em abstrato de erro no Magistério (isto é, de ruptura com a Tradição). Considerando o dogma da infalibilidade, nele se debate se um Concílio em comunhão com o Papa pode ou não errar em matéria de fé e de moral. Nesse plano, há aqueles que se esforçam por provar que pode haver erro no magistério do Vaticano II, ao passo que há aqueles que recusam essa possibilidade.

Como exemplo de trabalho que sustenta a impossibilidade de erro no magistério conciliar pode ser citada a “Orientação Pastoral sobre o Magistério Vivo da Igreja”, de Dom Fernando Arêas Rifan, da AASJMV, segundo a qual “não pode cair no erro todo o Episcopado da Igreja junto com o Papa”. Em contraposição, há o livro A Candeia debaixo do Alqueire, do Padre Álvaro Calderón, da FSSPX, segundo o qual pode haver erros (isto é, rupturas com a Tradição) nos textos do Vaticano II, pois não se trata de verdadeiro magistério.

Da combinação das posições teóricas possíveis nesses dois planos de discussão emergem três posições-síntese, a saber: a posição oficial dos Papas (aqui denominada de oficial ou de reformismo na continuidade), o tradicionalismo lefebvrista e o tradicionalismo sedevacantista:

  1. Os que julgam que não há ruptura nos textos do Concílio (primeiro plano) e que não é possível um Concílio em comunhão com o Papa errar (segundo plano) são os oficiais ou reformistas na continuidade.
  2. Os que julgam que há ruptura nos textos do Concílio (primeiro plano) e que é possível sim um Concílio em comunhão com o Papa errar (segundo plano) são os lefebvristas. Nesse sentido, embora reconheçam os Papas pós-Vaticano II como legítimos, eles adotam uma postura de resistência em relação aos pontos em que julgam haver rupturas com a Tradição.
  3. Os que julgam que há ruptura nos textos do Concílio (primeiro plano) e que é impossível um Concílio em comunhão com o Papa errar (segundo plano) são os chamados sedevacantistas. Para eles, a presença de tais erros revela a ausência de verdadeiros papas na Sé de Pedro. Em outras palavras, verdadeiros papas não errariam, logo só há impostores em Roma desde João XXIII.

Por fim, o terceiro plano tem natureza histórica e diz respeito à análise dos fatos relacionados aos pontificados pós-conciliares. Nele se discute como os Papas se comportaram e se comportam em relação à posição tradicionalista, particularmente em relação à posição tradicionalista lefebvrista.

Como exemplo de debate nesse plano, há a discussão sobre os direitos concedidos pela Santa Sé ao Instituto do Bom Pastor em relação ao Concílio Vaticano II e ao “Novus Ordo Missae”. Em resumo, discute-se aqui se o IBP é a FSSPX de Dom Lefebvre regularizada ou apenas mais uma das comunidades enquadradas no esquema da Comissão Ecclesia Dei (1988 – 2019), criada justamente para facilitar a plena comunhão eclesial dos sacerdotes e dos seminaristas ligados de diversos modos à mesma FSSPX e que desejam permanecer unidos ao Papa, conservando a Missa como era antes da reforma de Paulo VI.

Nesse plano, surge uma distinção entre os lefebvristas realistas e os lefebvristas românticos (ou tradirromânticos). Para os tradirromânticos, após Bento XVI (2005 – 2013), a Santa Sé começou a admitir a posição lefevristas como possível no seio da Igreja em um estado de plena comunhão, se não até mesmo promovê-la.

Assim, com base nesses três planos de discussão, podem ser identificados os seguintes grupos no panorama do tradicionalismo católico: os lefebvristas realistas, os tradirromânticos e os sedevacantistas.

Didaticamente, um aprofundamento sobre cada um desses grupos requer, no contexto brasileiro, um conhecimento mais detalhado a respeito dos seguintes temas:

  1. A contínua posição da Santa Sé sobre a continuidade do Vaticano II com a Tradição;
  2. A resistência de Dom Marcel Lefebvre (1905 – 1991) e de seus sucessores à frente da FSSPX;
  3. A criação da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro (1988) e seu desenvolvimento;
  4. A atuação de Dom Antônio de Castro Mayer (1904 – 1991) e a criação da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney cujo bispo administrador atual é Dom Fernando Arêas Rifan (1950);
  5. A atuação do leigo Plínio Corrêa de Oliveira (1908 – 1995) e da TFP (atual IPCO);
  6. A atuação do leigo Orlando Fedeli (1933 – 2010) e da Associação Cultural Montfort;
  7. A criação do Instituto do Bom Pastor (2006) e seu desenvolvimento;
  8. Os sacerdotes, diocesanos e religiosos, aderentes ao “Motu Proprio Summorum Pontificum” (2007);
  9. A origem e o desenvolvimento da União Sacerdotal Marcel Lefebvre (2014);
  10. Os sedevacantistas atuantes no Brasil.

Nesse sentido, aconselha-se, em um primeiro momento, a leitura do trabalho “Entre tradicionalistas e progressistas: a Santa Sé e seu discurso contínuo sobre a continuidade doutrinária do Vaticano II”.

Simplex
30 de janeiro de 2019

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